Inovação no Brasil ganha nova rota com startups e pesquisa aplicada, mas empresas precisam transformar tecnologia em resultado

Amelie Dervaux
Por Amelie Dervaux
Inovação no Brasil ganha nova rota com startups e pesquisa aplicada, mas empresas precisam transformar tecnologia em resultado
Inovação no Brasil ganha nova rota com startups e pesquisa aplicada, mas empresas precisam transformar tecnologia em resultado

Novas iniciativas mostram como financiamento, pesquisa aplicada e startups podem aproximar tecnologia brasileira de problemas reais do mercado.

A inovação brasileira entrou em uma fase em que ter uma boa ideia já não é suficiente para garantir relevância. Nos últimos dias, novas iniciativas envolvendo startups, pesquisa aplicada e tecnologia reforçaram uma questão importante para empreendedores: como transformar conhecimento técnico em soluções capazes de chegar ao mercado? Um dos movimentos mais recentes veio do Instituto de Pesquisas Eldorado, que anunciou nesta sexta-feira, 4 de setembro, um programa de aceleração tecnológica em inteligência artificial voltado a startups brasileiras. A iniciativa poderá selecionar até cinco empresas para projetos individualizados de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação durante 12 meses, com foco em IA, arquitetura de software, ciência de dados, escalabilidade, segurança e validação tecnológica.

O caso chama atenção porque mostra uma mudança no ecossistema: startups não precisam apenas de capital para crescer, mas também de infraestrutura, conhecimento e apoio técnico para transformar protótipos em tecnologias mais robustas. Esse movimento também se conecta à agenda de inovação do país, que envolve MCTI, Finep, CNPq e instituições de pesquisa. Para quem empreende com tecnologia, a dúvida central passa a ser como aproveitar esse ambiente para reduzir riscos e construir soluções que realmente resolvam problemas.

Por que startups de tecnologia precisam mais do que investimento para inovar

Durante anos, o debate sobre startups esteve muito associado à captação de recursos e à velocidade de crescimento. O cenário tecnológico atual, porém, exige uma camada adicional: capacidade de pesquisa, validação e desenvolvimento de produtos cada vez mais complexos. Uma startup pode ter uma ideia promissora de inteligência artificial, por exemplo, mas ainda precisar resolver problemas relacionados à arquitetura de software, segurança, qualidade dos dados, escalabilidade e confiabilidade antes de oferecer a solução em larga escala. É justamente nessa etapa intermediária que programas de aceleração tecnológica podem fazer diferença.

O programa anunciado pelo Instituto de Pesquisas Eldorado representa esse modelo. A iniciativa pretende selecionar até cinco startups para desenvolver projetos de PD&I durante 12 meses, em parceria com pesquisadores e especialistas do instituto. A proposta não estabelece exclusividade comercial, permitindo que as empresas continuem participando de outras iniciativas e processos de captação. Na prática, isso significa que a aceleração não é apresentada apenas como mentoria empresarial, mas como uma oportunidade de aprofundamento tecnológico para negócios que já possuem uma solução e precisam evoluí-la.

Esse tipo de apoio pode ser especialmente importante para startups que chegam ao chamado “vale da morte” da inovação. É o período em que uma tecnologia já deixou de ser apenas uma hipótese, mas ainda não possui maturidade suficiente para conquistar escala comercial. O desafio envolve transformar pesquisa em produto confiável, testar hipóteses, encontrar falhas, aperfeiçoar processos e demonstrar que a solução pode funcionar fora do ambiente controlado em que foi criada. Sem esse processo, uma tecnologia pode parecer inovadora no papel e apresentar dificuldades quando precisa atender clientes reais.

A experiência brasileira mostra que esse problema não é exclusivo das startups. A própria política pública de inovação procura aproximar empresas, universidades e centros de pesquisa para dividir parte do risco tecnológico. A Finep, por meio do programa Mais Inovação Brasil, mantém chamadas destinadas a projetos de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação em áreas estratégicas, incluindo saúde, energia, transformação mineral e sustentabilidade. Algumas chamadas exigem participação de Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação, reforçando justamente a ideia de que empresas podem precisar de competências científicas externas para desenvolver tecnologias mais sofisticadas.

Como a inteligência artificial está mudando a estratégia de inovação das empresas

A inteligência artificial ocupa posição central nessa transformação porque seu potencial depende menos da simples adoção de uma ferramenta e mais da capacidade de integrá-la aos processos da organização. Uma empresa pode utilizar um modelo pronto para automatizar uma tarefa, mas desenvolver uma solução própria de IA envolve desafios muito diferentes. Dados, infraestrutura computacional, segurança, arquitetura, avaliação de desempenho e integração com sistemas existentes passam a fazer parte do projeto.

O programa do Eldorado evidencia essa complexidade ao colocar entre os temas de desenvolvimento justamente inteligência artificial, ciência de dados, arquitetura de software, escalabilidade, robustez, segurança e validação tecnológica. Esses elementos mostram que a próxima etapa da IA empresarial tende a ser menos relacionada à experimentação isolada e mais ligada à construção de sistemas confiáveis. Para uma startup, isso pode significar a diferença entre apresentar uma demonstração tecnológica e conseguir operar uma solução em ambientes de produção.

Dados recentes também indicam que a adoção da inteligência artificial já alcançou uma parcela significativa do setor produtivo brasileiro. Um levantamento da Strand Partners para a AWS divulgado em 4 de setembro aponta que 12 milhões de empresas no país já utilizam IA, equivalente a cerca de metade dos negócios, mas apenas 15% alcançam um nível considerado avançado de aplicação da tecnologia. O dado ajuda a explicar por que existe espaço para novos negócios especializados: a primeira onda foi marcada pela experimentação, enquanto a próxima precisa resolver problemas de maturidade, integração e geração efetiva de valor.

Para empreendedores, essa diferença é estratégica. Uma startup que oferece apenas acesso a uma tecnologia disponível para qualquer empresa pode encontrar dificuldade para construir uma vantagem sustentável. Já uma solução que resolve um problema específico, utiliza dados de maneira diferenciada, possui integração difícil de replicar ou entrega ganhos mensuráveis pode criar uma posição mais defensável. Isso não significa que toda empresa precise desenvolver seu próprio modelo de IA, mas que o uso da tecnologia precisa estar ligado a uma necessidade concreta.

A inovação também depende de saber quando não utilizar determinada tecnologia. O excesso de entusiasmo em torno da inteligência artificial pode levar empresas a desenvolver projetos sem uma necessidade clara, aumentando custos e complexidade. O desafio do empreendedor é identificar onde existe uma barreira tecnológica real e avaliar se pesquisa, desenvolvimento ou inteligência artificial são realmente necessários para superá-la.

O que empreendedores podem fazer para transformar uma ideia em inovação aplicável

Uma das principais lições das iniciativas recentes é que o empreendedor deve estruturar a inovação antes de procurar apoio. O primeiro passo é definir claramente qual problema será resolvido e por que as alternativas existentes não são suficientes. Depois, é necessário estabelecer o que ainda precisa ser desenvolvido, quais riscos tecnológicos existem e quais evidências serão utilizadas para determinar se a solução funcionou.

Essa preparação também ajuda a identificar qual tipo de parceiro é necessário. Uma startup pode precisar de um centro de pesquisa para resolver uma questão científica, de uma empresa para validar a aplicação em ambiente real ou de um programa público para financiar parte do risco. O CNPq e o MCTI, por exemplo, continuam mantendo chamadas voltadas à cooperação científica e tecnológica, como a chamada conjunta Brasil-França publicada em 3 de setembro, que busca selecionar projetos de pesquisa entre grupos dos dois países para contribuir com desenvolvimento científico, tecnológico e inovação. As inscrições começaram em 3 de setembro e seguem até 31 de março de 2027.

Também vale acompanhar oportunidades de financiamento com atenção aos prazos e critérios. A Finep prorrogou recentemente diferentes chamadas do Mais Inovação Brasil, incluindo uma linha de Transformação Mineral com prazo até 4 de setembro, além de Saúde, Mobilidade Sustentável e Base Industrial de Defesa, com datas posteriores. Isso demonstra que o ecossistema possui recursos e programas, mas cada oportunidade exige análise específica sobre elegibilidade, maturidade tecnológica, contrapartidas e objetivos do projeto.

Outro ponto fundamental é pensar desde cedo na validação comercial. Uma tecnologia pode funcionar perfeitamente e ainda assim não encontrar clientes dispostos a pagar por ela. Por isso, pesquisa aplicada precisa caminhar junto com entrevistas, testes, provas de conceito e compreensão do mercado. A inovação ganha força quando existe uma ponte entre o laboratório e o usuário final.

O momento atual mostra que o Brasil possui uma combinação cada vez mais ampla de centros de pesquisa, startups, programas públicos e infraestrutura tecnológica. Para o empreendedor, isso significa que a oportunidade não está apenas em criar algo novo, mas em saber conectar conhecimento, financiamento e mercado. A inteligência artificial amplia esse espaço, mas também aumenta a exigência por soluções robustas, seguras e úteis.

Nos próximos anos, a competitividade das startups brasileiras dependerá cada vez mais da capacidade de transformar pesquisa em produto e produto em impacto. Programas de aceleração tecnológica, chamadas públicas e parcerias com instituições científicas podem reduzir parte do caminho entre uma ideia e sua aplicação, sem eliminar os riscos naturais de qualquer empreendimento inovador. O ponto decisivo será a execução: identificar um problema relevante, desenvolver a tecnologia adequada, testar a solução e aprender rapidamente com os resultados. É nesse processo que inovação deixa de ser promessa e passa a produzir valor para empresas e para a sociedade.

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