Há décadas o border collie carrega o título de cão mais inteligente do mundo, baseado no ranking criado pelo psicólogo canadense Stanley Coren na década de 1990. Wilson Bachega Junior, entusiasta que já conviveu de perto com a raça, sabe que essa fama não surgiu por acaso, mas também sabe que a pergunta por trás do título merece mais nuance do que costuma receber.
O que poucos param para checar é o que, exatamente, esse ranking mediu, e se ele continua de pé diante da ciência mais recente sobre cognição canina.
O que o ranking de Coren realmente mediu?
Coren avaliou cerca de 130 raças com base em um único tipo de inteligência: a de trabalho e obediência, ou seja, a rapidez com que um cão aprende um comando novo e a frequência com que obedece já na primeira tentativa. Border collies dominaram esse critério, aprendendo comandos em poucas repetições e respondendo corretamente em praticamente todas as tentativas.
Esse não é, porém, o único tipo de inteligência que o próprio Coren descreveu. Existe também a inteligência instintiva, ligada à função para a qual a raça foi criada, como o pastoreio, e a inteligência adaptativa, a capacidade de resolver problemas sozinho, sem depender de comando humano algum. O border collie lidera justamente o critério mais fácil de medir em laboratório, o de obedecer rápido, o que não é a mesma coisa que ser superior em qualquer forma de cognição.
O que aconteceu quando a ciência testou de novo?
Em 2022, um estudo publicado na revista científica Nature analisou o comportamento de mais de mil cães de doze raças diferentes, incluindo animais sem raça definida, usando metodologia distinta da de Coren. O resultado surpreendeu quem já dava a resposta como definitiva: o pastor belga malinois ficou em primeiro lugar, com o border collie aparecendo logo atrás, em segundo.

Wilson Bachega Junior observa que esse tipo de divergência entre estudos não invalida a fama do border collie, apenas mostra que “inteligência canina” não é um número fixo e universal, e sim algo que muda de acordo com o que exatamente está sendo medido e como o teste é desenhado.
Por que “inteligente” nem sempre significa “fácil”?
Um cão que aprende rápido também se entedia rápido. Border collies que não recebem estímulo mental suficiente tendem a inventar as próprias tarefas, e nem sempre essas tarefas são compatíveis com uma casa organizada: pastorear crianças, destruir objetos ou desenvolver ansiedade faz parte da lista de comportamentos comuns quando a energia mental do cão não tem para onde ir.
Wilson Bachega Junior reforça que essa é a parte da história que menos aparece quando o assunto é o título de “raça mais inteligente do mundo”. Existem casos de border collies que memorizam mais de mil palavras, mas manter essa capacidade exige rotina diária de desafio, algo bem diferente do que a maioria dos tutores imagina antes de adotar.
A pergunta que talvez importe mais
Talvez a dúvida certa não seja se o border collie é ou não o cão mais inteligente do mundo, mas se a rotina de quem pretende adotar um consegue sustentar essa inteligência no dia a dia. Wilson Bachega Junior resume bem: um cérebro rápido sem trabalho para fazer não é sorte, é um problema esperando para acontecer, e essa é a verdadeira pergunta que fica atrás do título.
Trocar o critério de “qual é o mais inteligente” por “qual exige o quê de mim” muda completamente a forma como alguém se prepara para conviver com a raça. Um ranking pode até definir quem aprende mais rápido, mas é a rotina diária, com espaço real para pastoreio, brincadeiras de busca e desafios mentais, que decide se essa inteligência vira parceria ou vira dor de cabeça.

