Política de inovação: Finep mantém R$ 500 milhões para projetos tecnológicos e empresas entram na reta final para apresentar propostas

Amelie Dervaux
Por Amelie Dervaux
Política de inovação: Finep mantém R$ 500 milhões para projetos tecnológicos e empresas entram na reta final para apresentar propostas
Política de inovação: Finep mantém R$ 500 milhões para projetos tecnológicos e empresas entram na reta final para apresentar propostas

Recursos não reembolsáveis podem apoiar pesquisa e desenvolvimento em áreas estratégicas, aproximando empresas brasileiras de universidades e centros de pesquisa.

O debate sobre política de inovação no Brasil ganha um componente prático nesta reta final de agosto: empresas ainda podem apresentar projetos a diferentes chamadas da Finep dentro da segunda rodada do programa Mais Inovação Brasil. Em algumas das linhas, o prazo termina em 31 de agosto de 2026, enquanto outras permanecem abertas até setembro. Entre os destaques está a chamada de Transição Energética, que prevê R$ 500 milhões em recursos de subvenção econômica para projetos de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação. A seleção contempla tecnologias como geração e armazenamento de energia, hidrogênio de baixa emissão de carbono, biocombustíveis, biogás e captura de carbono.

Para startups, empresas de tecnologia e negócios industriais, a notícia gera uma dúvida mais importante do que simplesmente “há dinheiro disponível?”. A questão é entender como funciona uma política pública de inovação e o que uma empresa precisa ter para transformar um edital em um projeto tecnológico viável. O modelo adotado pela Finep ajuda a revelar uma tendência da agenda brasileira: aproximar empresas e instituições científicas para reduzir o risco de desenvolver tecnologias que ainda não estão prontas para o mercado.

Por que o financiamento público virou uma peça importante da inovação empresarial

A subvenção econômica é diferente de um financiamento tradicional porque pode utilizar recursos não reembolsáveis para apoiar atividades de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação que envolvam risco tecnológico. Na chamada Mais Inovação Brasil, a Finep estabelece que os projetos sejam executados por empresas e tenham participação obrigatória de Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação, as ICTs. A proposta é compartilhar parte do risco associado ao desenvolvimento de tecnologias que podem exigir anos de pesquisa antes de chegar a uma aplicação comercial.

Esse mecanismo tem relevância econômica porque empresas podem ter dificuldade para financiar sozinhas etapas de desenvolvimento tecnológico com retorno incerto. Uma companhia pode identificar uma oportunidade em inteligência artificial, energia, saúde ou sustentabilidade, mas precisar de equipamentos, pesquisadores, testes e validação antes de transformar a ideia em produto. A política de inovação procura justamente preencher parte dessa lacuna, direcionando recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico para projetos considerados estratégicos.

A estrutura também muda a relação entre empresa e universidade. Em vez de tratar a academia apenas como fornecedora de conhecimento, o modelo cria condições para que pesquisadores participem de projetos com objetivos tecnológicos concretos. Para o empreendedor, isso pode significar acesso a competências que não existem internamente; para a instituição científica, representa uma oportunidade de levar conhecimento produzido em laboratório para problemas reais do setor produtivo.

A Finep informa que a rodada possui diferentes linhas temáticas e que, em uma das modalidades apresentadas, empresas de todos os portes podem participar, com projetos em níveis de maturidade tecnológica que vão de TRL 3 a TRL 7 ou 8, dependendo da linha. O sistema funciona em fluxo contínuo, e a avaliação pode ser interrompida caso os recursos previstos sejam consumidos pelas propostas aprovadas. (Finep) Isso torna o planejamento particularmente importante para empresas que pretendem participar: não basta ter uma boa ideia, é necessário demonstrar maturidade, capacidade de execução, risco tecnológico e coerência entre o problema identificado e a solução proposta.

Quais setores estão no radar da política brasileira de inovação

A distribuição das chamadas mostra que a política de inovação brasileira está tentando atuar em áreas que combinam desenvolvimento tecnológico, competitividade e desafios sociais. Além da transição energética, a Finep mantém chamadas para economia circular e cidades sustentáveis, transformação mineral, saúde e fármacos, entre outras frentes. No caso de Economia Circular e Cidades Sustentáveis, por exemplo, o programa contempla temas como bioeconomia, cidades inteligentes, saneamento, segurança hídrica, química e BIM.

Na saúde, a agenda inclui desenvolvimento de insumos farmacêuticos ativos estratégicos para o SUS, produtos biológicos, pesquisa clínica, terapias avançadas, dispositivos médicos e vacinas. A existência de uma chamada específica para esse setor mostra como a inovação passou a ser tratada também como instrumento de política industrial e de fortalecimento da capacidade nacional de produzir tecnologias consideradas estratégicas. Para startups de healthtech e empresas de biotecnologia, isso cria um ambiente no qual pesquisa científica e desenvolvimento empresarial podem caminhar juntos.

Outro eixo relevante é a transição energética. A chamada de R$ 500 milhões da Finep contempla geração de eletricidade, armazenamento, hidrogênio de baixa emissão, biocombustíveis, biogás e biometano, captura de carbono e outras tecnologias associadas à descarbonização. A escolha desses temas indica que a política pública não está olhando apenas para tecnologias digitais, mas também para setores industriais nos quais o domínio tecnológico pode afetar produtividade, segurança energética e competitividade internacional.

A dimensão regional também aparece no desenho de algumas chamadas. Na apresentação da Finep para a rodada, R$ 350 milhões estão indicados para ampla concorrência e R$ 150 milhões para Norte, Nordeste e Centro-Oeste, dentro de uma chamada de R$ 500 milhões. (Finep) A lógica é relevante porque concentração de pesquisa e investimento em determinadas regiões pode ampliar desigualdades no ecossistema de inovação. Distribuir oportunidades de financiamento ajuda a criar condições para que empresas e instituições fora dos principais polos tecnológicos também desenvolvam competências.

Para quem acompanha a política brasileira de ciência e tecnologia, o ponto central é que os editais funcionam como instrumentos de direcionamento. O Estado não precisa desenvolver diretamente todas as tecnologias para influenciar quais problemas recebem recursos, quais setores ganham capacidade de pesquisa e quais relações são estabelecidas entre empresas e universidades. MCTI, Finep, CNPq e FNDCT fazem parte desse sistema de políticas públicas que busca transformar conhecimento científico em desenvolvimento tecnológico e econômico.

O que uma empresa precisa avaliar antes de buscar recursos para inovação

O primeiro passo para uma empresa interessada em financiamento público é abandonar a lógica de começar pelo dinheiro. Um projeto consistente deve começar por um problema tecnológico claramente definido, apresentar uma solução que ainda envolva desenvolvimento e explicar por que o mercado não consegue financiar sozinho todo o risco envolvido. A proposta precisa demonstrar o que será pesquisado, quais etapas serão executadas, quais resultados tecnológicos são esperados e como a empresa pretende utilizar o conhecimento produzido.

A parceria com uma ICT também não deve ser tratada como mera formalidade. O pesquisador ou centro de pesquisa precisa possuir competências compatíveis com o desafio tecnológico, enquanto a empresa deve ter capacidade para transformar os resultados da pesquisa em processos, produtos ou serviços. O desenho da parceria, as responsabilidades, a propriedade intelectual e as formas de utilização dos resultados precisam ser discutidos antes da submissão para evitar conflitos posteriormente.

Outro ponto é compreender a diferença entre inovação e simples aquisição de tecnologia. Comprar uma ferramenta pronta ou implementar um software existente pode gerar transformação digital, mas não necessariamente caracteriza um projeto de pesquisa e desenvolvimento elegível para determinada chamada. Nos editais da Finep, a existência de risco tecnológico e a maturidade da solução são elementos importantes para enquadramento. A empresa precisa demonstrar que existe uma questão técnica ou científica que ainda precisa ser resolvida.

Também é necessário observar os detalhes de cada edital, porque valores, prazos, temas, níveis de maturidade e regras de participação variam entre as chamadas. Na rodada atualmente divulgada pela Finep, várias linhas têm prazo de 31 de agosto, enquanto Cadeias Agroindustriais Sustentáveis e Base Industrial de Defesa aparecem com prazo de 30 de setembro. Isso significa que empreendedores não devem considerar “Mais Inovação Brasil” como um edital único, mas como um conjunto de oportunidades com critérios específicos.

A reta final das chamadas da Finep mostra que política de inovação não é apenas uma discussão sobre orçamento público ou decisões governamentais. Para empresas brasileiras, ela pode significar acesso a estruturas capazes de acelerar pesquisa, reduzir parte do risco tecnológico e aproximar negócios de universidades e centros especializados. O resultado, porém, depende da qualidade dos projetos e da capacidade de transformar recursos em conhecimento, protótipos, processos e produtos competitivos. Para empreendedores, a principal oportunidade está em identificar problemas reais e construir soluções tecnológicas com potencial de impacto. Para o país, o desafio é fazer com que cada ciclo de investimento fortaleça uma base permanente de pesquisa, talentos e empresas inovadoras.

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