O mercado silencioso que movimenta bilhões: como os distressed assets redefinem a alocação de capital no Brasil?

Felipe Rassi
Felipe Rassi

Em um cenário em que a inadimplência corporativa segue em trajetória ascendente, Felipe Rassi, especialista em créditos estressados, identifica uma transformação profunda na forma como gestoras, fundos e investidores institucionais encaram a alocação de capital no Brasil de 2026. O mercado de distressed assets, historicamente restrito a poucos players especializados, atravessa um processo de abertura que amplia o leque de participantes e, ao mesmo tempo, eleva as exigências técnicas para operar com consistência.

Dados da B3 e da ANBIMA referentes ao primeiro trimestre de 2026 indicam que o volume de FIDCs com foco em carteiras de crédito não performado cresceu 41% em relação ao mesmo período do ano anterior, atingindo um patrimônio líquido agregado superior a R$ 42 bilhões. A expansão reflete não apenas o crescimento da oferta de ativos estressados, mas também uma mudança de percepção por parte de alocadores que antes evitavam essa classe por desconhecimento de suas dinâmicas específicas.

Por que o capital estrangeiro acelerou sua entrada no segmento?

A presença de fundos internacionais no mercado brasileiro de distressed assets deixou de ser episódica e passou a ser estrutural. Entre os fatores que explicam essa mudança, destacam-se a combinação de deságios expressivos, arcabouço jurídico mais previsível após as reformas da Lei de Recuperação Judicial e um pipeline robusto de ativos originados em setores com histórico de garantias reais de qualidade.

Conforme examina Felipe Rassi, o diferencial de retorno ajustado ao risco que o mercado brasileiro oferece em relação a mercados maduros como o norte-americano e o europeu segue sendo um dos principais atrativos para gestoras globais especializadas em situações especiais. Fundos com histórico de atuação em mercados emergentes da Ásia e da Europa Oriental têm encontrado no Brasil um ambiente operacional familiar, com complexidade jurídica gerenciável e potencial de retorno superior à média global da classe.

A estrutura dos FIDCs de NPL e seus mecanismos de proteção

Os fundos de investimento em direitos creditórios voltados para carteiras de crédito não performado operam com uma arquitetura de proteção que distingue claramente o risco assumido por diferentes classes de cotistas. As cotas sênior, com preferência na distribuição de rendimentos e no reembolso do principal, oferecem um perfil de risco mais conservador. As cotas subordinadas, por sua vez, absorvem as perdas iniciais em troca de uma participação maior nos ganhos excedentes.

Felipe Rassi
Felipe Rassi

Felipe Rassi pondera que a compreensão dessa hierarquia de risco é fundamental para que o investidor posicione sua alocação de forma coerente com seu perfil e seus objetivos. Investidores institucionais com mandato conservador frequentemente acessam o mercado de distressed assets por meio de cotas sênior de FIDCs bem estruturados, capturando retornos superiores aos do crédito privado convencional sem assumir o risco integral da carteira subjacente.

Setores em foco: onde estão os ativos mais relevantes de 2026?

A distribuição setorial dos ativos estressados disponíveis no mercado brasileiro em 2026 não é uniforme. O setor de saúde concentra o maior volume de operações em reestruturação, seguido por varejo, construção civil e agronegócio. Cada setor apresenta dinâmicas próprias de recuperação, perfis de garantia distintos e prazos médios de resolução que variam de forma significativa.

No agronegócio, por exemplo, a presença de Certificados de Recebíveis do Agronegócio e de garantias fundiárias cria um ambiente de recuperação relativamente mais previsível, desde que o processo de execução das garantias seja conduzido com eficiência técnica e jurídica. Já no varejo, a fragmentação das garantias e a volatilidade do fluxo de caixa tornam a análise mais complexa e o prazo de recuperação, em média, mais longo.

Sob a perspectiva de Felipe Rassi, a seleção setorial é uma das decisões mais relevantes na composição de um portfólio de distressed assets, e deve ser precedida de análise aprofundada das condições específicas de cada segmento, e não apenas da atratividade do deságio ofertado.

Governança e transparência como requisitos de escala

À medida que o mercado de distressed assets amadurece e atrai novos perfis de investidores, as exigências de governança e transparência nas operações de gestão tornam-se progressivamente mais rigorosas. Relatórios de performance detalhados, políticas de conflito de interesse bem definidas e processos auditados de avaliação de carteiras deixaram de ser diferenciais e passaram a ser requisitos básicos para gestoras que pretendem crescer com consistência.

Como elucida Felipe Rassi, o movimento de institucionalização do mercado de créditos estressados no Brasil segue uma trajetória similar à observada nos Estados Unidos na década de 1990 e na Europa após a crise de 2008. Em ambos os casos, a profissionalização dos processos de governança foi o principal catalisador da expansão sustentável do setor. O Brasil, com um ciclo de inadimplência ainda em desenvolvimento e um arcabouço regulatório em consolidação, reúne as condições para percorrer esse caminho com velocidade maior do que a observada em mercados predecessores.

Acompanhar de perto a evolução desse mercado, seus instrumentos, suas estruturas e suas oportunidades é uma necessidade para qualquer investidor ou gestor que pretenda atuar com relevância no segmento de alocação alternativa nos próximos anos.

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