Nova tecnologia brasileira de IA tenta transformar dados em decisões e aponta o próximo passo da inovação nas empresas

Amelie Dervaux
Por Amelie Dervaux
Nova tecnologia brasileira de IA tenta transformar dados em decisões e aponta o próximo passo da inovação nas empresas
Nova tecnologia brasileira de IA tenta transformar dados em decisões e aponta o próximo passo da inovação nas empresas

Plataforma criada no Brasil inaugura conceito de “cognitech” e aposta na combinação entre inteligência artificial, ciência de dados e conhecimento empresarial.

A inteligência artificial já deixou de ser uma promessa distante para se tornar uma ferramenta presente em empresas brasileiras, mas uma dúvida continua difícil de responder: como transformar o enorme volume de dados disponível em decisões realmente melhores? Essa questão ganhou novo exemplo nesta semana com o lançamento de uma plataforma brasileira da WeCogno, empresa que se apresenta como a primeira “cognitech” do mercado. O projeto recebeu investimento de R$ 2,5 milhões e combina inteligência artificial, ciência de dados e conhecimento especializado de negócios para interpretar informações e apoiar decisões em áreas como crédito, risco, marketing, operações, seguros, indústria e varejo. A proposta parte de um problema recorrente na transformação digital: possuir dados e infraestrutura não significa necessariamente conseguir extrair conhecimento útil deles. (Folha de S.Paulo)

A novidade é relevante para o ecossistema brasileiro porque desloca o debate sobre IA da simples automação para uma etapa mais estratégica. Para startups e empresas inovadoras, a questão passa a ser como construir tecnologias capazes de entender o contexto de cada operação, antecipar cenários e transformar análises em ações. Esse movimento também ajuda a explicar por que ciência de dados, inteligência artificial e conhecimento setorial estão se tornando cada vez mais integrados.

O que é uma cognitech e por que esse conceito chama atenção no mercado

O termo “cognitech” usado pela WeCogno representa uma tentativa de definir um modelo de empresa que combina cognição, tecnologia e experiência humana para apoiar decisões corporativas. A companhia nasceu da antiga Datarisk, fundada em 2017, e afirma ter ultrapassado a marca de 1 bilhão de scores calculados ao longo de sua trajetória, além de atuar em oito verticais de negócios. Segundo a própria empresa, a mudança de marca não representa apenas uma alteração visual, mas uma ampliação do posicionamento, que deixou de estar concentrado em crédito e risco para incluir ciência de dados, inteligência artificial, engenharia de dados, business intelligence e automação. (WeCogno)

A ideia é importante porque existe uma diferença entre uma ferramenta que simplesmente processa informações e uma solução que ajuda uma organização a decidir. Sistemas tradicionais de análise podem apresentar indicadores, gráficos e relatórios, enquanto modelos preditivos conseguem identificar padrões e estimar comportamentos futuros. A camada adicional proposta pela cognitech está justamente na interpretação desses resultados dentro do contexto do negócio, permitindo que a análise seja conectada a perguntas concretas, como qual cliente apresenta maior risco, qual produto tem potencial de crescimento ou onde uma operação pode perder eficiência. A tecnologia, nesse modelo, não aparece isoladamente, mas integrada ao conhecimento de quem conhece o problema.

A própria WeCogno afirma que sua metodologia começa pelo diagnóstico do desafio, passa pela modelagem e implementação e continua com acompanhamento dos resultados. Essa abordagem mostra uma tendência importante para o mercado de inovação: projetos de IA estão deixando de ser avaliados apenas pela sofisticação do algoritmo e passando a depender também da capacidade de integração com processos reais. Uma solução tecnicamente avançada pode gerar pouco valor se não estiver conectada ao fluxo de trabalho, se os dados forem inadequados ou se os profissionais não conseguirem utilizar suas recomendações. (WeCogno)

Para startups brasileiras, esse cenário cria uma oportunidade e, ao mesmo tempo, eleva a exigência competitiva. Não basta lançar uma plataforma com inteligência artificial incorporada; é preciso explicar qual problema é resolvido, quais dados sustentam as análises, como o sistema será integrado e de que maneira os resultados serão avaliados. A inovação passa a ser menos sobre colocar IA em um produto e mais sobre construir uma solução capaz de produzir conhecimento útil para uma decisão específica.

Por que transformar dados em conhecimento virou um desafio para as empresas

O crescimento da inteligência artificial está acontecendo em um ambiente no qual as organizações acumulam cada vez mais informações. Dados de clientes, vendas, operações, logística, pagamentos, atendimento e comportamento digital podem formar uma base valiosa, mas volume não significa qualidade. Informações dispersas, incompletas ou mal estruturadas podem gerar análises equivocadas, e até modelos sofisticados podem apresentar resultados ruins quando recebem dados inadequados. Por isso, a transformação digital depende tanto da organização da informação quanto da tecnologia utilizada para interpretá-la.

Esse desafio ajuda a explicar o espaço para plataformas especializadas em ciência de dados e IA aplicada. No caso da WeCogno, a empresa afirma que sua atuação procura conectar evidências, contexto de negócio e capacidade analítica para reduzir incertezas e apoiar decisões. Entre as aplicações apresentadas estão previsão de demanda, gestão de estoque, logística, risco, fraude, experiência do cliente, recursos humanos e estratégias de marketing. Em sua área de marketing e growth, por exemplo, a empresa descreve aplicações para identificar audiências, avaliar canais, ofertas, momento de comunicação e investimentos. (WeCogno)

A importância desse modelo aumenta quando se observa a diferença entre experimentar IA e incorporá-la de maneira consistente. Uma empresa pode utilizar uma ferramenta generativa para produzir textos ou resumir documentos e, ainda assim, continuar sem capacidade de utilizar seus próprios dados de maneira estratégica. Em uma etapa mais madura, a inteligência artificial começa a participar de processos críticos, como previsão de demanda, detecção de fraude, planejamento de força de trabalho e definição de estratégias comerciais. Isso exige governança, monitoramento, segurança e profissionais capazes de interpretar os resultados.

O movimento também conversa com a agenda brasileira de desenvolvimento tecnológico. O CNPq mantém a chamada RHAE IA, criada em parceria com o MCTI, para inserir mestres e doutores em microempresas, pequenas empresas e startups que desenvolvam soluções de inteligência artificial. O programa prevê até R$ 300 mil em bolsas de fomento tecnológico por projeto, duração máxima de 30 meses e contrapartida empresarial mínima de 20%, além de reservar pelo menos 30% do investimento para projetos das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. (Serviços e Informações do Brasil)

Essa conexão entre empresas, pesquisadores e tecnologia é estratégica porque o desenvolvimento de soluções mais sofisticadas exige competências que muitas startups não conseguem manter internamente desde o início. A aproximação com cientistas pode ampliar a capacidade de pesquisa aplicada, enquanto programas públicos reduzem parte dos obstáculos para contratação e desenvolvimento tecnológico. O desafio está em transformar esse apoio em produtos sustentáveis e aplicações que sobrevivam além do período de financiamento.

O que empresas e startups podem aprender com essa nova fase da inteligência artificial

Para uma empresa que pretende adotar IA, a principal lição é começar pelo problema e não pela ferramenta. Antes de contratar uma plataforma ou desenvolver um modelo próprio, é necessário identificar qual decisão precisa ser melhorada, quais informações estão disponíveis e qual resultado poderia demonstrar que o projeto funcionou. Essa lógica evita o chamado “projeto de IA por moda”, no qual a tecnologia é incorporada sem uma necessidade operacional clara.

Também é importante definir indicadores antes da implementação. Uma solução para logística pode ser avaliada por redução de rupturas, precisão das previsões ou diminuição de estoque parado, enquanto uma ferramenta de marketing pode ser observada por métricas de audiência, conversão, retenção ou eficiência do investimento. Nenhum desses resultados é garantido pela adoção de IA, e os indicadores precisam considerar o contexto específico de cada empresa. A tecnologia deve ser testada como qualquer outro investimento, com hipóteses, métricas e acompanhamento.

Startups que desenvolvem soluções nesse mercado podem seguir caminho semelhante. O diferencial tende a aparecer quando a empresa consegue combinar tecnologia difícil de replicar com conhecimento profundo de determinado setor. Uma plataforma voltada a seguros, por exemplo, precisa compreender os problemas específicos daquela operação, enquanto uma solução para indústria deve considerar produção, manutenção, cadeia de suprimentos e custos. O conhecimento vertical pode ser tão importante quanto o algoritmo.

Outro aspecto indispensável é a governança. A WeCogno afirma utilizar práticas relacionadas a qualidade, rastreabilidade e proteção de dados em seus projetos, enquanto sua política de privacidade estabelece responsabilidades específicas para segurança da informação e proteção de informações pessoais. Para qualquer empresa que utilize IA com dados de clientes ou funcionários, esse cuidado é essencial porque decisões automatizadas podem produzir impactos relevantes. Segurança, privacidade, explicabilidade e supervisão humana precisam fazer parte do projeto desde o começo. (WeCogno)

O Brasil também possui uma oportunidade de desenvolver aplicações de IA adaptadas às necessidades locais. Em vez de competir apenas pela criação de grandes modelos globais, empresas brasileiras podem encontrar espaço em soluções especializadas para agro, indústria, saúde, serviços financeiros, varejo, logística e setor público. Essa especialização pode permitir que startups transformem conhecimento sobre problemas brasileiros em produtos com potencial de escala.

A nova fase da inteligência artificial, portanto, não será definida apenas pela quantidade de empresas que utilizam a tecnologia, mas pela capacidade de transformar informação em decisões melhores. O surgimento do conceito de cognitech mostra uma tentativa de organizar justamente essa evolução, aproximando ciência de dados, IA e experiência empresarial. Para empreendedores, a oportunidade está em resolver problemas concretos com tecnologia responsável, enquanto empresas precisam aprender a avaliar inovação pelo impacto produzido e não apenas pela novidade da ferramenta.

O próximo salto da transformação digital brasileira pode acontecer menos na criação de mais dados e mais na capacidade de compreendê-los. Startups, centros de pesquisa e empresas que conseguirem unir conhecimento técnico, contexto de mercado e execução terão melhores condições de construir soluções relevantes. A inteligência artificial continuará avançando, mas seu verdadeiro valor dependerá da capacidade humana de fazer as perguntas certas, interpretar as respostas e transformar conhecimento em ação.

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